terça-feira, 20 de novembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
O Putedo
Meninas e meninos mais susceptíveis, é favor mudar de página porque as próximas linhas podem ferir a vossa sensibilidade.
Eu gostava de escrever sobre o Natal, o comércio tradicional e a prioridade que todos devemos ter em fazer compras na loja do nosso bairro. Com esse gesto estamos a contribuir para que a economia local sobreviva às atrocidades fiscais.
Gostava de escrever sobre um tema mais doce, mais “fofinho”. Menos áspero. Mas a minha consciência diz-me que preciso adoptar uma posição de denúncia.
Pois bem.
A Sra Dona Merkel veio a Portugal fazer Economia Psicológica.
Cravou almoço a Passos Coelho, mostrou às Agências de Rating que os portugueses estão bem domesticados e amealhou mais uns pontos no seu cartão FMI.
Merkel tem razão, é preciso meter algum juízo na cabeça dos políticos corruptos portugueses. O único problema é que Merkel continua a negociar com esses políticos, todos os dias, as medidas de austeridade que nos hão-de deixar como mão de obra ao nível do melhor que há no terceiro mundo. E isso faz de Merkel uma verdadeira cúmplice do assalto a que todos estamos a ser sujeitos.
O país chegou a este triste estado não por culpa das extravagâncias da classe média que desatou a comprar a crédito “sem rei nem roque”, mas antes pela sofreguidão, corrupção e má gestão que grassou pelos sucessivos governos desde o 25 de abril.
CORRUPÇÃO, pura e dura. É disso que se trata.
O resgate ao BPP e ao BPN para aguentar os devaneios do grupelho que tem em Cavaco Silva o maior aliado. CORRUPÇÃO à bruta!
Os contratos bilionários das Parcerias Público Privadas com consórcios de banqueiros e empreiteiros. CORRUPÇÃO indecente.
As Fundações e Institutos que alimentam o clientelismo dependente do Estado e dos vícios dos aparelhos. CORRUPÇÃO sem limite.
Aqueles que cavaram o buraco deste país, e continuam livremente impunes, querem agora que o contribuinte, o mesmo de sempre, assuma a responsabilidade da loucura e da ganância de quem tinha a obrigação de nos governar ao contrário de se governar.
PS, PSD e CDS serviram-se num fartote, não olhando à despesa. Agora que lhe apresentam a conta, assobiam para o lado e esperam que o contribuinte português se chegue à frente.
O suprassumo do putedo que grassa neste país é agora servido, sem pingo de pudor, por PSD e CDS que lado a lado votaram um orçamento que em nada (muito pelo contrário) se assemelha ao programa eleitoral votado pelos portugueses (os que o votaram) há cerca de um ano atrás.
Está visto que a solução para acabar com a pouca vergonha que nos governa está em nós. Em todos nós. Mais ninguém nos há-de valer. Tomemos o exemplo solidário das gentes de Silves, onde centenas de mãos ao trabalho estão a mudar a face de uma cidade que há pouco mais de 48 horas foi varrida pela força da natureza. A mudança tem de começar em cada um de nós. Em cada rua, em cada bairro, em cada vila ou freguesia.
O “Povo, unido, jamais será vencido”!
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Mercado Diário de Marinhais. Que Solução?
O Mercado Diário de
Marinhais foi encerrado pela ASAE há quase 2 anos. A Sra Presidente da Junta de
Freguesia abriu entretanto uma Página para que se encontrem soluções para
aquele espaço. Pois bem, aqui está o meu contributo.
O espaço merece ser requalificado e aberto à população. Dotá-lo das condições básicas para que ali possa renascer um Mercado Diário onde os produtores locais possam escoar a sua produção.
Marinhais tem bastantes produtores. Mel, azeite, enchidos, vinhos, legumes, frutas, doces, etc, etc. Produtos de grande qualidade e certamente a preços bastante competitivos. Marinhais quase que duplica a sua produção ao fim de semana. Pessoas que escolheram esta vila para sua segunda residência. Pessoas que valorizam (e muito) este tipo de artigo (de produção quase biológica). Sugiro à Junta de Freguesia e à sua Presidente que experimente organizar a venda de produtos de produção local no Mercado Diário. No caso de ser impossível para já a utilização das instalações do actual mercado, deixo uma sugestão (imagem em anexo) alternativa. Se existir realmente vontade para o fazer, esse evento tem “pernas” para andar. Ficar de braços cruzados à espera de melhores dias é que não ajuda nada. Se até ao final do ano a Junta de Freguesia não dinamizar uma actividade deste género, faço questão de reunir vontades para que Marinhais possa ter em breve um Mercado que reúna os produtores locais.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Chuva
Eu não nasci para viver no Inverno.
Não mesmo! Tragam-me o Verão que a minha pele já clama pelo Sol...
Não mesmo! Tragam-me o Verão que a minha pele já clama pelo Sol...
A generosidade no olhar
Meigo e doce. Companheiro dos últimos meses, é o companheiro
que qualquer um de nós gostaria de ter. Meigo e doce no olhar. Meigo e doce até
a caminhar. Os seus abraços são violentos e pesados, mas é um animal cheio de
personalidade. Como talvez nunca tenha tido nenhum. É o meu amigo Tommy.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
O que fizeste às nossas vidas, Pedro Manuel?
(texto publicado em www.rederegional.com)
Já viste bem? Estás entalado pelo Seguro epelo Portas. Tens quase meio milhão na rua a pedir a tua saída e pouco mais deum ano levas de mandato. Ainda há dias me dizias que 2013 seria o ano deviragem na economia e agora vens dizer-me que é preciso aumentar em 60% a minhacontribuição para uma reforma que dificilmente chegarei a ver. Que vou ter cadavez mais impostos às costas, menos salário, menos qualidade de vida, menosferiados, menos amigos empregados. Menos tanta coisa.
Para quê tanta mentira, para quê tanto sofrimento?
Naqueles dias de campanha eleitoral, vendias a ideia de um país bonito, comjustiça e igualdade, sem carregar mais nos impostos, sem ir mais ao nosso bolso.Foste um vendedor de ilusões, sabemos hoje.
Obrigas-me a ver os programas da RTP quefalam de portugueses com êxito por esse mundo fora e a sonhar com o dia em queo meu país será também assim. Eu também quero ser um “português pelo mundo”cheio de boas estórias para contar, cheio de sorrisos e sonhos e projectos eobjectivos e tudo e tudo o que um “português pelo mundo” pode querer. Mas querosê-lo, aqui. Deixa-me ser feliz no país mais lindo do mundo, o meu, o teu.
Se esta pode ser a terra das oportunidadespara o “eng.” Sócrates ou para o “dr.” Relvas, porque não dar a oportunidade deemprego a gente que estudou mesmo, que passou anos nos corredores faculdade eque conseguiu o diploma por efectivo mérito. Investimos tanto no ensino destesjovens para depois os vermos partir, “portugueses pelo mundo” empurrados poruma pátria que insiste nesta teoria errada de que as oportunidades estão dolado de lá da fronteira.
Oh, Pedro! Toma consciência do que estása fazer a este país, pequeno em área mas grande em valor. Este país que é tão teuquanto da Joana, da Catarina e da Júlia, tuas filhas. Achas mesmo que - já nemdigo nós - mas as tuas filhas merecem um futuro assim? Sem certezas, semalegria, sem luz nem brilho?
Razão tinha O Eça quando afirmava que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
(excerto de Poema Temperamental, de Joaquim Pessoa)
Já viste bem? Estás entalado pelo Seguro epelo Portas. Tens quase meio milhão na rua a pedir a tua saída e pouco mais deum ano levas de mandato. Ainda há dias me dizias que 2013 seria o ano deviragem na economia e agora vens dizer-me que é preciso aumentar em 60% a minhacontribuição para uma reforma que dificilmente chegarei a ver. Que vou ter cadavez mais impostos às costas, menos salário, menos qualidade de vida, menosferiados, menos amigos empregados. Menos tanta coisa.
Para quê tanta mentira, para quê tanto sofrimento?
Naqueles dias de campanha eleitoral, vendias a ideia de um país bonito, comjustiça e igualdade, sem carregar mais nos impostos, sem ir mais ao nosso bolso.Foste um vendedor de ilusões, sabemos hoje.
Obrigas-me a ver os programas da RTP quefalam de portugueses com êxito por esse mundo fora e a sonhar com o dia em queo meu país será também assim. Eu também quero ser um “português pelo mundo”cheio de boas estórias para contar, cheio de sorrisos e sonhos e projectos eobjectivos e tudo e tudo o que um “português pelo mundo” pode querer. Mas querosê-lo, aqui. Deixa-me ser feliz no país mais lindo do mundo, o meu, o teu.
Se esta pode ser a terra das oportunidadespara o “eng.” Sócrates ou para o “dr.” Relvas, porque não dar a oportunidade deemprego a gente que estudou mesmo, que passou anos nos corredores faculdade eque conseguiu o diploma por efectivo mérito. Investimos tanto no ensino destesjovens para depois os vermos partir, “portugueses pelo mundo” empurrados poruma pátria que insiste nesta teoria errada de que as oportunidades estão dolado de lá da fronteira.
Oh, Pedro! Toma consciência do que estása fazer a este país, pequeno em área mas grande em valor. Este país que é tão teuquanto da Joana, da Catarina e da Júlia, tuas filhas. Achas mesmo que - já nemdigo nós - mas as tuas filhas merecem um futuro assim? Sem certezas, semalegria, sem luz nem brilho?
Razão tinha O Eça quando afirmava que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
(excerto de Poema Temperamental, de Joaquim Pessoa)
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Com todo o respeito.
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Poema Temperamental, Joaquim Pessoa
Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Concerteza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Concerteza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
"O cano de uma pistola pelo cu"
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobre protegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millas, in El País
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