segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Poema Temperamental, Joaquim Pessoa

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Concerteza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"O cano de uma pistola pelo cu"


Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não       dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos       governos de meio mundo mas sobre protegidos, desde logo, por essa coisa a       que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento       especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da       pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso       brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa       justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância,       brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do       sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Juan José Millas, in El País
Link

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

É Agosto. Celebre-se!


É Agosto.

Hoje escrevo sobre esse acontecimento. Ser Agosto. Haver tempo livre para descobrir pequenos recantos que nos podem surpreender.

Há um Portugal onde em Agosto não há filas, nem multibancos.
Há um Portugal onde nem sequer há rede de telemóvel e onde a TDT entra a muito custo. Quando entra!!
Há dias peguei no carro e resolvi visitar algumas das “Aldeias do Xisto”, na zona centro do país. A primeira dessas aldeias a saltar ao caminho fica no concelho de Vila de Rei. A pequena aldeia de Água Formosa segue fiel ao conceito de aldeia do xisto. Aqui o silêncio é duro como a pedra que cobre todas as casas. Um silêncio que chega a incomodar.

As ruas apertadas obrigam a estacionar nos parques na periferia da aldeia. São aqui residentes apenas quatro almas. Ao fim de semana o número facilmente quadriplica.
Quem aqui sobrevive os dias, permite-se ao luxo de esquecer o calçado na eira.

A chave fica na porta, pela parte de fora. São luxos. Extravagância pura!
Água Formosa é apenas uma das dezenas de Aldeias do Xisto.
É um roteiro que vale a pena ser descoberto, sentido e saboreado. Nem todas as aldeias do xisto apresentam o mesmo aprumo e rigor. Em algumas o termo aldeia do xisto chega a ser abusivo, tal foi o espaço conquistado por tijolo e cimento.

Ainda assim vale a pena trocar uns dias de praia pelo prazer de conhecer o interior do interior. Seremos recompensados pelas generosas paisagens e pela riqueza das gentes que nos recebem. Os altos impostos, o preço dos combustíveis e a medíocre qualidade dos nossos políticos, são problemas podem esperar. Aproveitem-se estas horas de puro veludo, que os tempos próximos não se adivinham nada fáceis.

Visite Portugal.

Visite também www.aldeiasdoxisto.pt

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Apicultura - 27 e 28 Julho

Partilho na Janela o programa de uma nova iniciativa do Rancho Folclórico de Glória do Ribatejo. Trata-se de uma iniciativa que pretende pôr em evidência a Apicultura, atividade que ainda hoje tem uma certa importância na frreguesia gloriana, já que a mesma se encontra implantada em plena charneca. O cartaz dá conta do conteúdo das atividades, em que vão estar presentes os próprios apicultores.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Obras, parte 1

Estas imagens são apenas uma pequena parte daquilo que foi realizado no Pavilhão da Comissão de Festas de Marinhais, utilizando os saldos positivos das Festas realizadas desde 2009 a 2011. Estas obras garantem uma enorme qualidade no trabalho das comissões vindouras e dotam a freguesia de Marinhais de um equipamento capaz de receber uma panóplia de eventos, até mesmo gastronómicos.
Estes investimentos resultaram do trabalho de dezenas de voluntários que constituiram as últimas Comissões de Festas em Marinhais. Voluntários que deixaram para trás as suas vidas e as suas rotinas para estar disponível a 100% para a Comissão de Festas.

No meu caso, e penso que posso adivinhar que todos os elementos das últimas comissões partilham desta opinião, não procuro nenhum reconhecimento público, nem nenhum agradecimento das autoridades da vila ou do concelho. No entanto, não posso deixar de lamentar que alguns imprestáveis queiram por em causa a dignidade de dezenas de voluntários que trabalharam para que esta obra nascesse. A esses que mais não sabem do que falar, porque na verdade nunca os vi a trabalhar em prol da terra, parece que dói quando algo de útil é feito na freguesia. Gente pequena, tão pequena que não assusta quem trabalha. Só nos motiva a seguir em frente, por um caminho sério e honesto, onde certamente nunca nos iremos cruzar com "eles".

Nota:
imprestável 
adj. 2 g.
Que não presta; inútil.


 

Festas de Marinhais 2012



Programa completo em:
www.festasdemarinhais.com

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Portugal - Promíscuo

Este meu país, sustentador de tanta boa gente que já devia estar há anos a ver o céu aos quadradinhos.
(abra o link e veja pelos proprios olhos)

terça-feira, 3 de julho de 2012

37º Festival de Folclore de Glória do Ribatejo

No próximo dia 7 de Julho aAssociação Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo levará aefeito mais uma iniciativa de promoção das caraterísticas singulares daquelavila ribatejana. Com efeito, o 37º Festival de Folclore de Glória do Ribatejoconstitui-se como o ponto alto de um extenso e exigente plano de atividades,que este ano se subordina ao tema - A Pesquisa. Assim, do programa consta umcortejo etnográfico, às 19 horas, a que se segue, a partir das 22 horas, umamostra em vídeo da atividade de pesquisa que o grupo tem realizado, a qual irácertamente surpreender o público pela quantidade e variedade de peças,costumes, cantigas, histórias de vida etc, ainda desconhecidas até hoje. Oprograma continua com a atuação dos grupos, em que o anfitrião fará umaapresentação baseada precisamente na pesquisa prévia, trazendo até nós a imageme a voz dos informantes.
Um programa cultural a nãoperder!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Noite de São João

Noite de São João tem de ter um bom espectáculo pirotécnico em pleno Rio Douro. Foi o que aconteceu mais uma vez. Está de parabéns a empresa que preparou o espectáculo.
Aqui fica a ligação para o vídeo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Festas de Marinhais 2012 - Programa


A vida em suspenso

Para onde vamos? O que decidir? Vivemos por estes dias em suspenso. Poucos podem garantir que a Grécia permaneça no Euro. Há até quem afirme que os gregos já estão a cunhar moeda própria. A Esquerda pode subir ao poder. Da mesma forma que é legitimo admitir que um governo de unidade nacional seja a solução para a tragédia grega. Os gregos vivem num limbo político. Os portugueses vivem num limbo social. Tanto há ministros a anunciar o fim da crise para finais de 2012, como há quem apregoe que os bons ventos só começam a soprar lá para 2015 ou 2016. Sabe-se que o IVA fica para já nos 23% mas ninguém nega que os impostos podem voltar a aumentar em breve, para fazer face à quebra da receita fiscal. Hoje sei que ao abastecermos o carro com 50 euros de combustível, 10 euros vão directos para o Estado (em impostos). É muita fruta! A instabilidade social que hoje se vive faz-nos dar graças pela espuma dos dias. Já é bom ter uns trocos para o almoço e para jantar fora uma vez por mês. Claro que a prestação da casa fica para mais tarde. Há outras prioridades. A conta do telemóvel e a factura da televisão por cabo, por exemplo. Há que esperar pelas promoções, sem complicações, dos supermercados da moda. Haja saúde e optimismo, que daqui a umas semanas haverá um Belmiro com descontos de 75% para o povo, ou quem sabe um mosqueteiro mais afoito que se chegue mais à frente. Por estes dias em que andamos entretidos a sobreviver, entre o quotidiano da selecção de Paulo Bento e o Caso Relvas vs Público, entre as notícias de roubos e suicídios e os jackpots do Euromilhões, quase nos esquecemos do mais importante: mesmo que em “modo” suspenso, só se vive uma vez.

Lembre-se disso!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"As Bonecas da Glória"




Foi inaugurada no passado dia 25 de abril a exposição “Bonecas da Glória”, na Casa do Povo de Glória do Ribatejo.

A exposição está a ser um verdadeiro êxito e logo no dia de abertura da mesma várias centenas de pessoas tiveram oportunidade de ficar a conhecer  as 76 bonecas de todos os tamanhos, apresentando todas elas um conjunto de pormenores artesanais, dignos de verdadeiras artistas.

Trata-se de uma iniciativa que pretende valorizar o património imaterial da vila de Glória do Ribatejo e, ao mesmo tempo, reforçar algumas vertentes da sua forte identidade comunitária.
A exposição pode ser visitada até ao próximo domingo, 6 de maio.

Gotye, a voz do momento